segunda-feira, setembro 11, 2006

Idas e Vindas

Um dia, ele sussurrou você é minha flor de perdição e a vida foi tomada de sobressaltos e encantos. Não restaram mistérios em nossos olhos, só uma ternura pungente e o desejo de nunca se separar. Perdida nesse amor, só via sol que ele era, sua luz, seu calor, chegando devagar todos os dias, como quem não quer nada. Ele me tornou sua.
Temi esse amor, esse amor abrupto e urgente que me afastou da vida para existir apenas em seus braços. Vivi a angústia antecipada, o medo invulgar do fim, porque um sentimento que despedaça e reconstrói infinitas vezes não pode, não deve continuar.
Um dia, ele disse não somos mais nós. Vou-me de você, que devorou meus pedaços.
Desde então, sou metade.

sábado, setembro 09, 2006

Carta


Meu amor,
eu disse que não iria pedir para você voltar.
Mas me diga o que faço desse amor teimoso?
Meus pensamentos andam por aí, andam, mas sempre reencontram sua voz, seu cheiro ou alguma palavra de amor perdida, entre tantas de despedida.
O que faço dessa dor? Não sei, mais nada sei porque erro em inclemente passado tendo visões dos momentos tão nossos e agora sem dono.
Não choro mais e me abraço à noite. Rolo no leito e me envolvo em lembranças, coisas loucas, pequenas coisas de nós dois, a flor, o espinho que me arranhou a mão e beijos para estancar o sangue. Um livro e dois leitores, um beijo a cada página virada. Livro abandonado e dois leitores a decifrar os doces códigos da pele e da boca.
Amanheço e procuro sua música, mas há um silêncio perene em meu coração. Há um silêncio no mundo, como se nem mundo fosse e só essa ausência, essa sua ausência que povoa os lugares e torna enorme o tempo de viver. Sem você, sem você, sem você que está em mim, que não me deixa, que nunca se vai, preso em minha alma presa desse amor inútil.

Imgem: Leonardo da Vinci

quinta-feira, setembro 07, 2006

Quando o amor vier

Quando o amor vier, há de me encontrar já feliz pelo prenúncio de sua vinda.
Decerto, estarei plena de tantas vidas a sós que vivi à sua espera, com a certeza mágica das crianças.

Se acaso chegar ferido, darei meu colo e dos meus braços farei ninho. Mas, se vier afoito, darei meu sangue e o coração trêmulo dos apaixonados. Se quiser, gueixa; se insistir, deusa.

Tantas vezes ensaiei sua chegada!

Espero-o com a primavera em meus olhos e o calor do verão.
Espero-o na dança solitária do meu corpo que sempre começa ao imaginar o amor à minha porta.
Espero com carinhos há muito guardados, cálidos, indóceis.
Espero com festa e centelhas nos olhos.
Espero com todo o amor que guardo para quando ele vier.

Imagem: Pierre-Auguste Cot

PÁTRIA

Meus queridos amigos, hoje é o dia da Pátria, o dia em que deveríamos comemorar nossa liberdade e independência. Eu não poderia deixar de dizer o que sinto, como sempre faço aqui.

Não há comemorações. O povo virou as costas para a idéia de Pátria e para o respeito aos seus símbolos e aos dias nacionais. Mas, o povo não é culpado. Isso é fruto da enorme descrença de todos diante da vergonha porque passamos atualmente. A vergonha de ver a pátria tomada pela corrupção e pelos corruptos.

Mas eu tenho esperança. Eu acredito que iremos mudar esse país.
Eu sei que, em breve, poderemos “ver contente a mãe gentil”.
Muito em breve, nossas vozes e mentes unidas cantarão que “já raiou a liberdade no horizonte do Brasil”.

Será logo, no dia seguinte àquele em que os vendilhões serão expulsos do templo sagrado que é a pátria brasileira.

Para isso, precisamos exercitar nossa consciência e abandonar o “temor servil”, escolhendo homens e mulheres preocupados com o país, como nossos representantes. Nós sabemos fazer isso e iremos fazer. Somos cidadãos honestos, por que, então, nossos representantes poderão ser o inverso?

Não podemos novamente aceitar o “astuto ardil da perfídia” de “ímpias falanges”.
Vamos voltar a ter orgulho da nossa Pátria.

P.S. Os itálicos são do Hino da Independência.

terça-feira, setembro 05, 2006

Cúmplice

Cúmplice?
Não fui cúmplice,
Apenas aceitei seus carinhos
e me calei à música do seu riso.
Nada aceitei senão a saudade
que deixava em todos os meus caminhos.
Não diga que minha boca chamou a sua
quando eu apenas vivia de sonhá-la.
Não, não fui cúmplice.
Esperei apenas.
Foi você a vir, foi você.

Imagem: Alfred Gokel

domingo, setembro 03, 2006

Etiquetada

Já havia sido etiquetada no Escrevinhações, em 31/08, mas como disse o meu querido Marco, que novamente me etiquetou, a tentação de contemplar o próprio umbigo é inelutável.

Por isso, coloco aqui mais quatro coisas de que gosto e que me definem, uma delas repetida e todas tão comuns, coisas de gente simples, como eu sou.

Sem dúvida, o que me dá mais prazer neste mundo são os livros, esses companheiros confiáveis e constantes. Costumo ter uns três ou quatro na cabeceira, e leio ao acaso, releio, busco pedaços, frases, alguma imagem que me emocionou. Leio no banheiro, na fila do banco, na cama. Leio na cozinha cortando legumes. Leio, leio, leio.
Minha relação com eles é também sensorial: gosto de tocá-los, de admirar suas capas, tentando decifrá-las, gosto das orelhas, do cheiro, do volume, do peso deles em minhas mãos. É amor, é paixão o que me liga aos livros.

Gosto do amor, esse mundo, ora primavera, ora inverno. Gosto de amar e das pessoas apaixonadas. A falta do ser amado e a espera. O prazer da vinda e esse átimo em que a respiração se desnorteia de tanta felicidade, à sua chegada. A cumplicidade, a alegria quase infantil de compartilhar o mesmo espaço, o mesmo momento de amor. As dores e saudade quando o amor deixa de ser brinquedo e se torna solidão. Gosto de tudo isso e sinto-me nua e perdida quando não estou amando.

Gosto de música e de cantar. A música é um milagre, eu acredito. Nossa ligação com os deuses, um resquício deles que ficou em nossa alma. O último bem, o único elo que nos permitiram para que não ninguém se esqueça de sua origem divina. Sempre me deslumbro com os sons, a melodia me atrai mais que as letras. Adoro violoncelo e aquele som quase dor.

Gosto de gente. Conversar, trocar gentilezas e carinhos, presentes. Gosto das pessoas para amá-las e confio em todas, como criança. Raramente me engano ou me entristeço com os meus amigos.

As pessoas são baús que nunca se enchem ou se esvaziam, porque vamos tirando alegrias, festas, e coloridas lembranças, trocando-as por nossa própria felicidade. O que colocamos neste baú é o que iremos encontrar mais tarde quando formos, nele, buscar algo. Amizade também é compartilhar. Inclusive as dores.

Há mais, claro. Meus cachorros, meus sapatos, meus cd's...... Há muito mais.

Imagem: Tony Vita

sexta-feira, setembro 01, 2006

Pássaro preso

Tenho medo de escuro.
Não gosto de portas fechadas.
Prefiro a claridade dos dias e o calor do sol.

Porém, muitas vezes, tranco minhas portas
e desapareço em minha própria escuridão.

Nestes momentos, sou ninguém.
Nada me redime,
trapezista sem circo, desisto de voar.

Tudo inerte, sem pêndulos, sem volta, até que uma palavra, algum perfume de flores desfazem as paredes que criei.


Onde estão, onde estão as palavras?
O que foi feito das flores?