sábado, abril 28, 2007

Desde que chegou

Desde que chegou,
ando por encruzilhadas de silêncio,
pois desconhecia esse subterrâneo
anunciar de desejos,
essa eclosão de me emudecer.
Se minha voz se cala,
desde que chegou,
em perfumes de cortesã me desvendo,
entrego os seios, beijo-lhe as mãos.
Se em silêncio me entrego,
é pelo temor de perturbar
os tênues acordes
deste fragílimo amor.
Se me toma em maciez de pétalas,
é que a você me entrego como as rosas,
em lento, perfumado e profundo revelar-se.

(asas leves, largífluo querer... eu e você).


Imagem: Harold Feinstein

quarta-feira, abril 25, 2007

Definição

Quis ter a beleza das deusas, a pureza,
a voz de embalar ou algum outro feitiço,
um jeito de encantar.
Nada disso tenho ou sou.
Tenho as luas que me acompanham desde madrugadas antigas demais para me lembrar.
Tenho as rugas e as cismas dos meus inúmeros dias e palavras perdidas, quase sempre de amor.
Tenho umas tantas ilusões que nunca se vão nem envelhecem.
E um amor sem rumo, sem jeito de se entregar, aqui guardado,
que às vezes emudece, mas sempre consegue
por a boca no mundo e alma nos dedos.
Então, finjo que sou poeta, brinco de atriz
e troco palavras e máscaras, ilusões.
Tento ser feliz.

Imagem: Klimt

terça-feira, abril 24, 2007

Amor despedaçado



Perdido o amor, vou aos poucos recolhendo
os pedaços de ilusões,
descartando flores mortas,
apagando palavras do meu cansaço de sonhar.
Incorrigível, apego-me a pequenos brilhos daqui e dali, paixão e caminhos que teimavam em se construir
(eu imaginei de pedra, o que era areia).
O amor é arma letal e os iludidos, amando,
nem sabem que os beijos são cordas
ou de mãos que podem sufocar.
O mortal do amor, sem volta, sem ressurreição,
é quando se vai como quem não quer,
sorrateiro deixar de ser,
é ir-se como um sonho de lento acordar,
despertando, quando nem sei se ainda durmo
ou se é o fim que invade a realidade.

E me agarro ao travesseiro como se nele estivesse ainda
tudo que minha alma guardou.
E é apenas, pena,
penas do travesseiro rasgado de lágrimas,
em vôo breve pelo meu quarto vazio.
Perdido o amor, é o que resta,
esta ilusão de pássaro que nunca chegou a voar.

domingo, abril 22, 2007

MEU ANJO

Mandas-me não amar, eu ardo
Dizes-me que sossegue, eu peno, eu morro"
Bocage


Já fui mulher de cantos e alegrias fáceis,
imersa na felicidade de uma vida comum e rasa.
Já provei vinhos e bocas levada pela beleza
e o rumor das noites vazias de solidão.
Já falei de amor sem saber
dos seus significados e armadilhas,
luzeiros de ofuscar a razão e descartar certezas.
Já fui infeliz e não sabia,
paródia triste do cancioneiro.
Agora, apesar do outono, ouso renascer,
presa nas asas de um anjo, aprendiz da ciência de voar.
Um anjo a me ensinar que mesmo as dores têm beleza,
se resultam desse amor verdadeiro que plantou em mim,
jardineiro de sonhos.
Agora, é outono.
Semeada de amor, guardo em mim
as afoitas fontes de real felicidade
que mal suportam esperar as flores
e já se querem soltas em beijos, em risos,
em luzes de primavera ou quenturas de verão.
Sou a mesma e meu amor transborda.

(Foi o anjo que, em mim, desconcertou as estações).


Imagem: Boueges

sexta-feira, abril 20, 2007

Blogs que me fazem pensar

Há pessoas que nascem viradas para a lua, todos sabem disso. Eu sou uma delas. Não, não é vaidade fútil. É uma certeza. E digo isso porque sou riquíssima. Minha fortuna é imensa e posso gastá-la sem parar, que nunca acaba. Ao contrário. Eu a espalho e ela volta, sempre.

Minha fortuna é a amizade. E, por ela, recebi este belo presente de dois amigos, ao mesmo tempo. Meu exagerado e querido amigo, Ricardo, o Poeta, de A Cor da Letra e minha doce e linda amiga, a Poeta Angela, do Esboço, com linda homenagem em forma de belas palavras, gostam deste bloguinho porque ele os faz pensar.

É um presente e uma responsabilidade. Terei que melhorar muito mesmo para atender as expectativas desses anjos que se fingem de gente.

Eu vou dizer: não há nada mais difícil que escolher cinco blogs que fazem pensar. Há dias, estou pensando (risos) e sempre há mais de 30 (ai, ai). Depois de fazer listas intermináveis e riscar daqui e incluir dali, rasgar tudo e recomeçar, cheguei nesta lista.

A melhor, a maior, a mais cultuada, a mais gentil e que ensina, encanta, diverte e se indigna com elegância impar: minha amiga (com muita honra): Santa, e o seu Blog da Santa, que já recebeu mais de 200 mil visitas (sim, isso mesmo). É o primeiro que leio todas as manhãs.

O blog do meu amigo DO, o Ramsés Séc. XXI também é referência em diversidade, inteligência e um certo lirismo meio escondido entre textos e críticas sempre importantes. Eu o leio todos os dias também.

Esse agora é até redundância. Trata-se do Antigas Ternuras, do querido Marco. Este é um repositório de lembranças, às vezes cômicas e sempre emocionantes, sem contar que ele é um maravilhoso contador de histórias, que nos prende e nos fazer desejar que nunca se acabem. Eu adoro esse blog.

Ah! O blog da Cilene (um site, na verdade), Distant Daily é jornalístico e divulga textos rápidos e interessantíssimos diretamente da Noruega. Está sempre atualizado, com matérias muito originais. A Cilene também faz um excelente trabalho sobre a vida de imigrantes brasileiros no exterior, com entrevistas e esclarecimentos importantes a respeito do sonho de "fazer a vida lá fora". Eu recomendo a leitura diária.

Falando de qualidade, beleza, reflexão e emoção, vocês precisam ver o blog da Dora, o lindíssimo Pretensos Colóquios. Neste blog, os poemas são como água de cachoeira infinita, ora leves, ora abundantes. Sempre nos encharcando de beleza e sensibilidade. É maravilhoso.

Como fui indicada por DOIS amigos, creio que posso abusar um pouco para indicar mais um lindíssimo blog, o Red Grine & Blue, do meu amigo, Poeta e fotógrafo português mais que perfeito, AntonioR. Vocês precisam conhecer a beleza das fotos, dos textos e dos poemas neste magnifíco blog.

Meus queridos, há mais outros cem blogs que eu gostaria de listar aqui, além daqueles que já estão nos links nos meus outros. Mas, fazer o quê? Só me autorizaram falar sobre cinco. É uma tarefa dificílima, mas muito interessante. Espero que gostem dos blogs que me fazem pensar.


P.S. Hoje estarei assim, linda (ai, ai, a pretensão das pessoas!).
É o casamento da minha filha. Depois, mostro umas fotos.

quarta-feira, abril 18, 2007

Carta de amor


Amor,

bem queria dizer meu, meu amor, meu, só meu, mas essas solidões a que me obriga e o silêncio onde morrem meus beijos, esses lábios selados e (rendo-me), aqueles lençóis desamarrotados não me permitem usar o possessivo pronome do amor de dois.
Já molhei as flores, o jardim está grávido de perfumes. Mas, se se demora, parte-se o jardim, esvai-se em outonos e ficam umas borboletas apenas, meio perdidas e esperançosas de alguma cor. Fico também, uma borboleta estranhamente desproporcional como é desmesurado esse amor, essa espera de você.
Tenho novidades que nem imagina: sonhos diferentes e música que inventei para cantar baixinho quando você chegar. Não, não direi mais nada. Quem sabe assim, curioso, venha em Pésago montado e eu o seduza, para sempre amante e amado?
Aprendi a desenhar mapas e vou lhe ensinar o caminho do éden (sem remorso, só os pecados).
Ninguém morreu por esses lados. Aqui, apenas desmaios de sol (como em poemas antigos) e beija-flor que parece suicida de tanto se afogar em doces águas. Mas não é nada além de felicidade.
Eu é que ando triste, dessas tristezas dramáticas que enxergam cinzas e que se querem transferir para o resto do mundo, por não se conter onde nascem.
A família vai bem e quase não há brigas. Beijos há demais, em lindo despudor, que os pequeninos andam namorando que dá gosto (e inveja também). E você é o culpado pela perdição da minha alma.
Sem mais para o momento, recuso a despedida e ouso chamá-lo: vem.

Imagem: Kilburne

domingo, abril 15, 2007

Busca

Te procurei por toda parte,
em labirintos de ausência
e caminhos siderais,
mapas rodoviários rasgados de suor e cansaço.
Te procurei, anjo e castigo
a me fazer perdida de tanto amor,
de querer.
Te procurei para que morras em mim
a me percorrer como andei pelos mundos
indo ao teu encontro
indo sempre ao teu encontro
sem saber se eras miragem,
ou romance que li e louca, comecei a viver
depois da última página.
Te procurei tanto
e agora, hesito à porta,
medrosa de não suportar
esse querer desatinado
esse quase morrer de te amar.

Imagem: Klaus Gohlke

Abrindo a semana, há um poema sobre a Terra, lá no blog do Léo.