Imagem: DeMorgan
terça-feira, agosto 21, 2007
sábado, agosto 18, 2007
Confissão
Confesso que queria o amor.Todas as insônias, as reticências
e minha voz calada,
todos as músicas de amor e as palavras girando,
todo o mar, os cais invisíveis,
essa cegueira de nada mais ver,
a falsa mansidão das minhas mãos sem pouso,
as paredes que desmanchei,
a fome, a mancha, o mofo, a morte,
todas as noites que inventei
e todo dia reabrir as bicas, acender o fogo, o suor,
são o desaguar do meu amor,
esse lobo faminto, sozinho.
Por não ser, o amor me nega.
Por se negar, o amor me desfaz.
Eu queria ser feliz
e a ausência do amor não deixa.
Imagem: Nicoletta
terça-feira, agosto 14, 2007
Guardados

Recolhi suas lembranças, as memórias do nosso amor.
As horas guardei. Quem me dera todas elas, em volta constante, mas o tempo já passou, já levou nossos momentos.
Agora, ficaram as eternidades e estas são lentas senhoras que só se vão a muito custo. A eternidade da solidão, a eternidade das madrugadas e entre todas, a mais permanente: a saudade.
Guardei seu olhar de nuvem, de quem só contempla horizontes (e os via em mim, quando o amor não era essa ausência). Guardei o calor da sua voz, uma quentura boa de paixão que afastou todos os invernos abrigados em mim.
Nem sabe, amor. Eu, que antes tremia ao seu convite, à sua perdição em meus labirintos, hoje sou trêmula folha, tonta de tanto vento frio nos vazios que deixou.
Recolhi todos os fragmentos de felicidade, bolhas de sabão que espalhava pelos meus dias. Guardei esses pedaços de ilusão dentro a alma, meu espelho mais colorido, onde vive a esperança. Quem sabe, um dia, quando também sentir frio e estiver cercado de eternidades, volte para se mirar, quem sabe...
Imagem: Frank Dicksee
terça-feira, agosto 07, 2007
Ensina-me
Como enganar os dias solitários e a alma árida?
A lembrança do que não foi,
como um filme interrompido após os letreiros iniciais?
Como enganar a vontade dos beijos
que inventavam saudades para mais tarde
e de que nem sei o sabor?
Como enganar essa dor
dos signos não desenhados,
de não ver o chão que queríamos marcar com nossas palavras?
Tudo areia, tudo. O mar levou.
Como enganar as mãos ansiosas pelo
corpo de moldar em angústia de paixão
e detê-las antes do gesto inútil,
do gesto sem lugar, sem porto, sem corpo de tocar?
Como enganar meus sonhos, se
"você é a palavra única que ando pronunciando"?
Ensina-me onde me esconder da saudade,
se não tenho braços de me acolher?
Imagem: Daeni Pino
domingo, agosto 05, 2007
Cinzas

Agora que a promessa se desfez,
agora que o amor se cansou de continuar,
o que haverá de meu no seu coração?
Guarda, quem sabe, minha voz?
Guarda o vermelho da flor feminina,
guarda do mar, o sal que encontrou?
Se não, onde estão?
Perderam-se talvez,
sob ecos noturnos de outras paixões.
De seu, meu coração guarda as canções
que sempre afirmava nossas
(havia uma para cada momento de ternura, lembra-se?)
De você, guardo a agonia delicada
de suas mãos que nunca me deixavam,
"meu brinquedo",
"minha boneca de pele de louça",
palavras suas, que agora são minhas,
guardadas, desenhadas em minhas lembranças
como rabiscos coloridos de criança feliz.
Você nem se lembra,
mas não se preocupe.
Quando a vida doer à falta de alguma ternura,
poderei contar de cada dia e cada desvairada noite
e tudo, espero, provocará apenas um sorriso,
uma saudade morna, desbotada pelas "cinzas das horas".
Mas não sofra logo, não venha logo em busca do que deixou.
Por enquanto, ainda sou vela solitária.
Por enquanto, ainda a saudade é brasa queimando
nas cinzas desse amor.
Imagem: Shirely Novak
agora que o amor se cansou de continuar,
o que haverá de meu no seu coração?
Guarda, quem sabe, minha voz?
Guarda o vermelho da flor feminina,
guarda do mar, o sal que encontrou?
Se não, onde estão?
Perderam-se talvez,
sob ecos noturnos de outras paixões.
De seu, meu coração guarda as canções
que sempre afirmava nossas
(havia uma para cada momento de ternura, lembra-se?)
De você, guardo a agonia delicada
de suas mãos que nunca me deixavam,
"meu brinquedo",
"minha boneca de pele de louça",
palavras suas, que agora são minhas,
guardadas, desenhadas em minhas lembranças
como rabiscos coloridos de criança feliz.
Você nem se lembra,
mas não se preocupe.
Quando a vida doer à falta de alguma ternura,
poderei contar de cada dia e cada desvairada noite
e tudo, espero, provocará apenas um sorriso,
uma saudade morna, desbotada pelas "cinzas das horas".
Mas não sofra logo, não venha logo em busca do que deixou.
Por enquanto, ainda sou vela solitária.
Por enquanto, ainda a saudade é brasa queimando
nas cinzas desse amor.
Imagem: Shirely Novak
sexta-feira, agosto 03, 2007
Desamparo

Para além das horas cinzentas, vejo a vida passando,
o rio que nunca volta,
levando seixos, deixando as mais pesadas pedras.
Ando cansada deste peso, do mudo passar dos dias
"sem paz, sem amor, sem teto..."
Nem um bolero ou flores me alcançam.
Neste rio que indiferente, passa,
forte, o vento, de dentro, cobre a tenra cor das flores
e leva a música para outro mundo mais feliz.
Já me fingi de atriz e encenei dentro de outra cena
as horas alegres, as dores suaves e algum amor.
Triste espetáculo, sem coro, sem platéia. Desisti.
Hoje, vivo meus próprios dias, as horas vazias, as noites sem fim.
E arranco pedaços. Arranco pedaços de mim.
Quem sabe assim, de naco em naco,
diminua a solidão, cortando-a, em sangue,
em dor, em transe, até o fim.
o rio que nunca volta,
levando seixos, deixando as mais pesadas pedras.
Ando cansada deste peso, do mudo passar dos dias
"sem paz, sem amor, sem teto..."
Nem um bolero ou flores me alcançam.
Neste rio que indiferente, passa,
forte, o vento, de dentro, cobre a tenra cor das flores
e leva a música para outro mundo mais feliz.
Já me fingi de atriz e encenei dentro de outra cena
as horas alegres, as dores suaves e algum amor.
Triste espetáculo, sem coro, sem platéia. Desisti.
Hoje, vivo meus próprios dias, as horas vazias, as noites sem fim.
E arranco pedaços. Arranco pedaços de mim.
Quem sabe assim, de naco em naco,
diminua a solidão, cortando-a, em sangue,
em dor, em transe, até o fim.
Imagem: Jonh Henri Fuseli
quarta-feira, agosto 01, 2007
Madrugada
Um violão abraçado em abismo de rosas,dilema das mãos, mal sabem onde estão
mas sabem do som que o amor abriga,
sabem se só dilermando?
ou são as minhas,
que descansam nesta madrugada
de nós dois,
ou três ou mil amantes
tão frágeis na rua,
e a lua, rindo dessas neblinas
que a cobrem.
quem repousa em meu corpo?
o violão, d'accord, d'accord
carrilhões, outros sons,
já é madrugada,
mata-me de amor.
Imagem: Diego Roberto

