sexta-feira, setembro 21, 2007

Vieste


Ao teu amor fui destinada, agora sei.
De tanto o ter vivido,
em sonhos, em notívagos monólogos,
sei de tuas pegadas, sei das madrugadas
feitas de te esperar.
Chamei teu nome nas ruas,
em murmúrios, é verdade.
O ruído de te esperar
era um grito dentro de mim.
Vieste, enfim vieste.
Mal sei ouvir
a confidencial música que sussurras.
Jardineiro dos meus sonhos,
me ensine sobre esse amanhecer.

Imagem: Chagall

segunda-feira, setembro 17, 2007

De amor, não sabia...

E eu que imaginei saber do amor, o aroma, nada sabia de comunhão e profanos desejos.
Apenas, de longe, sentia esse arder que agora envolve meus sentidos
e a garganta que se tranca quando quer cantar.
O que sabia eu da ternura quente que faz dançar meus braços,
adiantando-se à tua chegada?
Nada, meu amor, nada.
Desconhecia esse desespero de saudade que adormece os relógios
e me submerge em agonias de espera.
Os sabores que guardo na boca, todos novos, mal os seguro,
nesta nova ânsia
de que venhas prová-los.
Meu canto, amor, só tem uma palavra:
o teu nome, em chamado de urgências.
Procuro teu cheiro nas flores que amo, nos livros, nas pedras.
Procuro-te nas noites e só em sonhos, encontro o beijo
que me desfaz em rosa cálida para sua boca
e deixa minha alma amarfanhada de noturnos e doces enleios.
E eu, que imaginei ter conhecido o amor!

Imagem: Rossetti

sexta-feira, setembro 14, 2007

Acalanto

Um poeta me falou do amor
e de ventos e sonhos,
perfumou meu coração com suas palavras.
Veio com as mãos prenhes de girassóis e
abriu a noite em que me encerro
em amarelos ardis de encantamento.
Refez as madrugadas que eu havia esquecido
e as estrelas se vestiram de bailarinas.
Brilham além da luz,
brilham nos meus braços
e acendem minhas mãos,
o único pedaço de mim que dormia
e agora, coloridas de vida, ensaiam carinhos.

Um poeta me falou do amor
e não mais anoiteço.
Agora, adormeço no colo das suas palavras

Imagem: Ona

quarta-feira, setembro 12, 2007

QUERER-TE

Querer-te é um vôo em que me lanço,
como ave de curta vida
indo de encontro ao rochedo.
Sou frágil para tanto amor
e ainda assim, vou,
busco de livre vontade os tormentos,
as tormentas do amor, esse insaciável tirano.

Querer-te é um vento a que me entrego,
andando da terra para o mar, a levar
os perfumes, o pó do tempo.
E o tempo nada pode para tanto amor.

Querer-te é voltar sempre os olhos para trás
e chorar a lágrima azul
que em meus olhos deixaste.
Azul do mar que não cessa de crescer entre nós.

Querer-te é esse lamento de rio nas pedras,
esse subterrâneo domar da realidade,
esse imaginar, como se existisse
a rosa, o arco-íris e sua promessa de felicidade.


domingo, setembro 09, 2007

Meu amor

Meu amor hoje vive em gavetas,
sob a poeira dos dias solitários,
guardado em palavras não ditas,
desoladas palavras que só falam de saudade.
Meu amor, tão delicado, anda perdido
entre pedaços de lembranças do tempo
em que eu era feliz.
Mal se ergue.
Falta-lhe o alimento de outras palavras.
Falta-lhe o ar dos carinhos divididos.
Meu amor é espelho de uma só imagem
e só vive,
vive só em mim.

Imagem: Veronique Mansart

terça-feira, setembro 04, 2007

Fera

"o amor zomba dos anos."
Tom Zé


Sim, amigo.
cometi a loucura de amar.

Não repudie a palavra.
É loucura, o meu amor,
um dançar de página de livro aberto
que antecipa enredos, desfaz a lógica.

Não se assuste, o amor não morde
senão a quem o guarda em si,
fera a hesitar no escuro,
que se amansa ao ínfimo olhar
de quem se ama.

Amo.
E o que importa,
se meu amor e suas marcas
ficam somente em mim?

Imagem: Francine Von Hove

domingo, setembro 02, 2007

Ilusões



A todas as ilusões me entrego.
Se não há amor, invento.
Vivo de verso em verso
como se amando pela vida andasse.

Engano-me?
Sim.
De que mais viveria
senão dessa agonia?

Dói?
Sim.
Muito mais doeria
carregar em minha mão
a flor morta da solidão.





Imagem: Jonh Willian Waterhouse