quinta-feira, julho 26, 2007

Ainda brinco

E agora, brinco. Só porque não perco essa mania de rolar em seus braços, de lembrar do suspiro do seu cansaço se desfazendo em meu corpo, dos seus olhos alheios ao fogo, ao vinho que derramamos, seus olhos profundamente perdidos no prazer mais inocente de nossas mãos, agora imóveis, depois da longa sinfonia.

Não, não perco essa mania de me sentar aos seus pés, enquanto leio, brinco com uma poesia, versos de amor de grande poeta e tão menor, tão menor que nossa ternura (o que sabem afinal, esses que escrevem?). E sua voz repetindo os versos que dizem "eu te amo", do jeito que os poetas dizem, com flores, corações partidos, ventos, montanhas, rios a desaguar até que o poema termine e sua boca, imitando a minha, beija os lábios mais amados.

Ah! meu amado, não me canso de o buscar e todas as manhãs, os domingos, os dias que hão de vir, que sem você não são dias, não são nada.
Dormindo, acordada, em insônia, em tempos sem fim, perdidas as horas, não me canso de o amar, não me esqueço de brincar de amor, do meu amor por você, sem fim.

Insubmissa, brinco. Busco a menina que você deixou em mim.


Imagem: François Quilici

quarta-feira, julho 25, 2007

Acaba em mim, o inverno

Já sinto os ares de agosto
e seu prenúncio de primavera.
Já não sou mais borboleta, mas ainda carrego as cores armazenadas, do ano passado.
Dos perfumes que meu amor deixava aqui e ali, guardo resquícios, réstias da luz dos olhos dele, guardo os sonhos.
Pensar na primavera sempre me deixa eufórica como se o meu amor, finalmente abrisse os braços para me perfumar com seu cheiro, para eu me perder nele, abelha no pólen e casulo para que em mim, se aqueça.
Das andanças dos dias, das estações, das pausas, das vidas, sempre carrego a esperança das flores em seu eterno e prenhe retorno.

Imagem: Ona

terça-feira, julho 24, 2007

Se fosse tempo de sorrir

Se fosse tempo de sorrir, amor,
iria convidá-lo para a festa
pela banalidade dos relógios,
todos mudos, inúteis
agora que você chegou.

Se fosse tempo de sorrir,
em serenata solitária,
eu cantaria em um fado,
a fábula do nosso amor,
encheria a noite de cor.
(a lua me acompanharia)

Se fosse tempo de sorrir...

Mas agora, é a hora das pedras
de tanto sangue banhadas,
mais lembram uma guerra.
é hora das pedras que caem,
é hora das pedras que cobrem
os homens, quase pássaros
e seu último voar.

Agora, é hora da dor
e há tantos relógios parados,
não pelo fim da espera.
estão para sempre mudos,
pela morte, pelo horror!

Imagem: Leonardo da Vinci

sábado, julho 21, 2007

Manhãs

Todo dia havia uma esperança
no alumiar da manhã
e eu andava pelas calçadas em cantorias,
parecendo gente feliz.
Toda manhã havia uma esperança menina,
e o perfume bom que a esperança deixa no ar.
Andava pelas ruas indo encontrar algum milagre que a noite deixara
por meio do sonho,
por arte do querer.

Sabe? Eu esperava você.
A cada esquina que surgia,
origami de se dobrar
o encantamento de (quem sabe?)
o encontrar.

Eu esperava você.

Minhas pernas hoje vivem perdidas,
nem sabem que rumo tomar.
Meus olhos, coitados, cansados de espreitar
evitam virar a rua,
seguem pela alameda reta,
cegos de tanto esperar.

(Preciso de descanso para meu coração,
cansado desse amor sozinho
que me habita sem contemplação
).

Imagem: Nicholas-Hely-Hutchinson

quarta-feira, julho 18, 2007

Meu canto




Canto,
para enganar a angústia dos dias.
Eu canto alegrias.
Desamparada diante do que não sinto,
as notas, tons de antes,
muito me custam.
A garganta nem sabe se canta,
ou se este vento
que a toma de tempos em tempos,
é lamento.
Canto. E enquanto os versos,
cúmplices de sua melodia, dançam,
vou enganando a angústia e o mundo,
vou iludindo o senso e, por querer,
canto, esperando você.

segunda-feira, julho 16, 2007

Amo você

Amo você sem pensar na imposibilidade de saber dos rumos que procura e de quanto desencontro há entre os meus e os seus caminhos. Não me importa o muro, o mar, as milhas ou meu mundo vazio do seu.
Encarcerada neste amor, persigo devaneios mesmo quando já vai alto o sol.

Muitas vezes, qual criança, fecho os olhos e peço a algum dos mil deuses do amor que virem os pólos do mundo e os seus olhos para mim. E nessa prece, uma esperança se abre maior ainda que tudo que espero. Como se fora criança, acredito que, amanhã, se saberá também envolto nesta loucura.

Amo você e, se fosse capaz de belezas, escreveria,
em folhas coloridas de paixão,
o mais imenso poema de amor e entrega a você, meu amor,
que nada sabe de ontens, de noites ou de sonhos sem amanhã.

Imagem: Sinclair

domingo, julho 15, 2007

Luz e sombra



E nos demos nomes de amantes,
e nos provocamos com paixão.
E me dizias Helena, de tanta beleza, perdida.
Pulsamos juntos nas páginas do nosso amor,
mudando o ritmo do mundo.

Agora que és apenas a minha saudade,
tão enorme te tornaste
e entranhas o meu mundo
como areia de tempestades.
Dos romances que encenamos,
restou apenas a tragédia de quem ama sem ter amor.

Imagem: Ian Winstanley