sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Espera


O amor espera em silêncio.
Além e antes,
a flor de todos os espinhos
abre-se a cada sol
ainda que o dia, sob plúvios,
pareça lamentar minhas feridas.
Presa a alma nestes lamentos,
creio, entretanto, em outras cores
e nos eflúvios novos
de outra primavera.
Sei do céu, dos seus caminhos azuis
onde já passei um tempo
que era todos os tempos.
Por isso, creio enquanto...

... o amor espera.
Silêncio!

sábado, janeiro 03, 2009

RENDAS DE SAL


"Invento o amor e sei a dor de me lançar
Eu queria ser feliz
Invento o mar..."
Milton Nascimento e Ronaldo Bastos


Rendo-me ao improvável navegante
de minhas águas
marés ignoradas.
Rendo-me
ao que nunca me abraça
ao barco que passa além
e seus olhos de não ver ressacas e remanços
areia de palavras, decorada
que espalho, de tempos em tempos.
Rendo-me ao vento inocente dos dias
que apaga o sonho, ao passar
e leva o aroma dos beijos
e leva quem amava para outro e longe mar.
Rendo-me à ardente constância das águas
presas nestes meus olhos
e à abstinência dos sentidos
nestes frios lençois, perdidos.
Rendo-me
e me sufocam os bordados
e as flores tristes
à espera do navegante para sempre longe
destas rendas que, de amor,
teci.

Imagem: Eugene Carriere

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Entre penumbras...


...confesso que te amo
embora já tenha dito
de todas as maneiras
na intenção do verso
na premeditação da lua
no sem sentido do que digo
subterfúgios
máscara de poeta
para te dizer todo dia
que te amo
por que não enxergas?
cegas, as palavras se atropelam
cansada cantiga de amigo
a repetir meus ardores
de amor e medo
de que não mais sejas
o sentido que ainda busco,
o mar à minha espera,
o sonho, o gemido
do desejo e o suspiro
de amor
todas as noites revivido.

quinta-feira, novembro 13, 2008

Amo-te ainda


Se dos meus olhos desaba a luz
de perenes manhãs de sol
abrindo minhas cortinas,
é por saber de ti,
voz distante e rara.

Amo-te ainda hoje
e me visto de vermelho em manhãs assim
em que tua voz me desperta
(um fado em sonhos)
como se fora te encontrar.

Amo-te ainda e mais
de um amor sem asas, tecido de ausência
(e ânsia)
e me queria dentro dos teus sonhos
como te percebo nestas madrugadas.

Se desperto contigo,
canto o meu amor desvalido
e vou pelo dia, colorindo calçadas
com lembranças da noite e suas horas infindas
como se, enfim, tivesses vindo.

(Amo-te ainda e tanto)

Imagem: Marie Louise Oudkerk

segunda-feira, novembro 03, 2008

A música do amor


Que importa este corpo
de onde se ausentou a primavera
se o amor, como melodia de cítaras
atravessa os silêncios da noite,
desfaz o frio, abre os mares
levando consigo as notas do lamento,
o canto antigo do meu querer?

Que importa se não estás nunca
e só me deixou as sombras,
escombros de carinhos
que insisto em refazer?

O meu amor continua fluindo em ascenso
soando em plangências desarvoradas
a confundir as madrugadas.

Que importa a dor
pela morte da flor que plantaste
para depois matar de sede e fome?

Há uma sinfonia
(alarido de lembranças)
de palavras que sussurro
no solitário torpor das noites
e cobrem as nuvens.

Choverá em algum lugar...
Quem sabe, assim, ouvirás meu canto?

quarta-feira, outubro 15, 2008

Arca de ilusões

Entre tantas ilusões,
foi a ti que escolhi,
corsário dos meus sonhos
na arca da solidão, guardados.

Entre tantas oferendas
de amor, algumas
outras de felicidade
quase me perdi.

Nenhum sonho transformou em festa
a frieza que comigo amanhecia,
depois da mais longa madrugada,
senão o de tuas palavras.

Andei pelos caminhos onde pisam todos os amantes,
ao lado da ilusão do teu amor a me roubar
do frio e da noite que julguei eterna.

Porém, à primeira tempestade,
fostes embora
levando da arca, o brilho.
Meus sonhos todos perdidos
no vão do mundo.
Agora nenhum há, guardado no fundo,
nenhuma estrada
nem ilusão,
nada.

sexta-feira, outubro 03, 2008

Tormento


Nestas noites minhas
de morrer de amor,
tua imagem rodopia
na solitária taça
que meus lábios embriaga.

Como se fosses chegar
a qualquer momento,
flores inventam tua vinda
tramando aromas na janela.

Que sabem as flores de perfumes?
Que sei eu de ti
que não voltas?

(Só sei do tormento
que em mim deixaste,
aroma de mar, cor do vento
).

Imagem: Fernando Diniz