quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Ainda sou a mesma

Ainda sou a mesma, só me falta um pedaço.
Ainda sou a mesma e a esperança me move, como leva a semente ascendendo ao encontro da luz ou o ser informe em seu casulo trancado, sonhando perfumes.

Falta-me uma parte e andaria trôpega, não fosse a esperança, arrimo e leito de abrigar aqueles que, do amor, só carregam as correntes.

De que me farto?
Daquilo que me permite a melancolia dos dias transformados em gavetas entulhadas de sonhos, lembranças e palavras de amor devolvidas.
Farto-me de todos os carinhos presos em minhas mãos, sem dono, sem solução.

Falta-me uma parte,
mas me sobra a coragem das borboletas
e suas asas de papel em perene e colorida indecisão.

Sem asas, sou andarilha e atravesso a solidão.
Sem norte, vagueio em vigílias,
barco desancorado em águas de ilusão.

(você se foi e eu fiquei ainda)

Imagem: Anita Munman

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

CARNAVAL

Perdida de amor,
perco-me entre cores e foliões,
entre as dores que brincam
no bloco dos amantes sem esperança.
Juntos, em meio à festa,
sorrisos de fantasia ocultam a dor,
dançam de boca em boca,
em opulências de desolação.
No bloco dos sozinhos,
cada confete, uma lembrança,
serpentinas são lágrimas
e as máscaras borradas desfazem a alegria
como se fora sempre o fim
do mais triste dos carnavais.

Imagem: Patrick
Ciranna

Veja um novo poema em http://bloguesuite.blogspot.com/

sábado, fevereiro 10, 2007

Opção

Por favor, permite que minha saudade
comece a se aquietar.
Ou então volta para meus dias
e arranca de mim
as tristes vestes desse amor sem jeito
e sem vontade de se acabar.



Desnuda-me e verás com que espinhos
me arranhei para chamar tua atenção.
Desnuda-me, enfim, da solidão.
Imagem: Titiano

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

A Carta

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
Adélia Prado



Fui escrever uma carta de amor
que finalmente o convencesse
de que não pode mais viver sem mim.
E contar minhas vantagens,
as palavras de amor que guardo (segredo),
do café especial que aprendi só para você.
Fui falar que sei muita música bonita
e danço conforme a música quando estou feliz.
Eu quis dizer também que a tristeza
só mora comigo porque você não está.
Ia explicar que sei jogar
e também rolar no tapete.
Ia dizer dos meus dias intermináveis,
sem você.
Queria lhe contar da chama
e da possível entrega que o aguarda,
dos lençóis que se dissolvem
em perfumes pesados.
Nada falei.

Queria ter o lume dos poetas,
o rumo e usar as palavras como farol!
Nada sei, nada.
Nem as palavras tenho,
nem sei o seu itinerário.
Não o alcanço.
Fala outras línguas
e vai por outros mundos.
Este papel, em sua branca inutilidade,
irônico me observa.
Calo-me. Só.


Imagem: Guilhaume Plisson

terça-feira, fevereiro 06, 2007

CONVITE

Meus amigos, hoje estou em festa. Fui convidada para participar do lindo mundo de Léo Scarterzinne, onde passo a publicar também, regularmente.
Espero-os lá para ler INSÔNIA II.


Tenho certeza que irão gostar muito.

domingo, fevereiro 04, 2007

Degustação

Degustar-me não é fácil, amigo,

Há em mim, quase sempre,

o sabor enjoado, passado dos limites,

de fruta verde que se morde lentamente.

Sob a língua, o amargor destrambelha os sentidos.

Por vezes, ardo.
Os rios do mundo despejados
podem aliviar por segundos
e volto a queimar.


Se, porém, juntar a fome e a paciência,
banhar tudo com ternuras,
se souber misturar os olhos,
trocar os pés pelas mãos,
molhar a palavra em minha boca
e me desnortear

posso ser pêssego maduro
e doçura embriagando o mundo
que havia em torno de nós.

Imagem: Veronique Mansart

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

História de amor

Um dia, ele chegou com um jeito de marinheiro,
trazendo flores para os meus cabelos,
(oxalá fosse sereia e pudesse encantá-lo para sempre).
E, acredite, borboletas me confundiam,
meus dias puro jardim.
E era um amor tão grande, e era com tal alarido
que pássaros um tanto tolos vinham invejar na janela.
Orquestra e coro.
Eles lá, nós aqui, em dueto.
Um dia, ele se foi com o viço das flores
(que tentei encompridar até o longe futuro).
Hoje, sem viço, sem perfume, sem cor, se pudesse,
iria embora também
(nas mãos, flores...).
(Um dia, ele me fez pensar
que eu era a deusa do mar).
Imagem: Gustav Klimt