sábado, março 13, 2010

O vento do silêncio



Houve um tempo para o amor,
tempestades me partiam
em desejos côncavos
e meu corpo se dobrava ao raio,
e se queimava à luz de tuas palavras.
Houve um tempo de amor
e "me deste tua alma"
ou sonhei que pulsavam em mim, teus anseios?

O que há de novo neste novo existir?
Outro tempo
do silêncio
do vento impetuoso do silêncio
levando as lembranças, as palavras.
Um amor que se curvou também,
fraco, findo por nada.

Houve um tempo de amor
que o vento do silêncio levou.

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Interlúdio


Pressinto tua vinda nas flores sob a janela.
Na desarmonia dos ventos,
ao rumor dos teus passos,
ouço as palavras que irás dizer,
as palavras de quem volta
e desfaz o sossego da saudade cansada.
Pressinto quando, nas horas tristes,
pensas nos nossos braços
e na teia louca dos beijos.

(acaso pensas que não sei dos caminhos
e do seu impossível refazer?)


Imagem: Wong Luisang

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Penso em ti



Pois eu não, por Deus não, eu não te esquecerei
até que me separe de minha alma...
(Khamsá')


Penso em ti quando solto,
o lobo dos sentidos salta sobre mim
na sede indizível dos perdidos.

Penso em ti, na noite, antes perfumosa,
a devassar janelas e lençóis.
Agora, névoa, visgo de dor
que atravesso entre gemidos.

Penso em ti quando se alteia
o mar e, músico, deixa no ar
um tremor, um alarido,
tal qual o amor.

Penso em ti quando
recua o mar
levando o espanto de todo início
e, vago, deixa o sal
para que nada morra
nem a saudade do que hoje é findo.

sábado, novembro 21, 2009

Espera


Fiquei aqui por horas
fiquei esperando o dia
na porta que não se abria
para os teus olhos de encontro.
Fiquei esperando o sol
que mora nos olhos teus
e não abrem mais os dias.
Fiquei aqui por horas
e a porta não se abria
nem o sol, nem os dias.

E agora,
nem sol,
nem hora,
nem dia.

Só o pranto.

(e os meus olhos
que sonham com os olhos teus).

segunda-feira, agosto 24, 2009

Enredo triste


Por um tempo escuro e louco,
segui na tarefa de te esquecer.
Sondando caminhos de viver, segui
e eram névoas, os dias
e eram sombras, as noites.

Na solidão, qual estrela perdida, segui
lavrando em silêncio, a pedra fria da solidão.

Escondendo os lamentos, pelas ruas segui.

Segui por estes caminhos, em vão.
Tu não me amas, eu não te esqueço,
enredo triste de dor.

De que me serviu anuviar a alma
e sufocar o corpo, tentando apagar
as lembranças de ti?

Voltas, voltas sempre.
Nunca foste, nunca
e segui me enganando
na efêmera ilusão de te esquecer.

Imagem: Iaia Gagliani

domingo, julho 19, 2009

Meu amor, senhor dos sonhos


Ai, quem me dera ver-te,
quem me dera morar-te...
Vinícius de Moraes

Senhor das minhas águas
por onde navego e morro
senhor de minhas bandeiras
de júbilo ou logro,
senhor dos ventos, doce corsário,
meu amor me arrasta em águas,
no sal das mágoas, o corte, a dor
e o fim dos brumosos lamentos
se ele volta
se dele, os látegos da paixão cobrem
meu corpo cansado da líquida luta
(ai, lágrimas)
se dele fluem as ondas de amor.

Dos meus portos, perdido,
não ouve o amor, meu chamado, meus gemidos

Oh! Meu amor
Arrebata-me da ausência de teu lume
e me conduz a teus pélagos, senhor dos sonhos.
Lá, envolta em teus desejos
quero imergir, sereia e senhora,
dos teus carinhos, feliz prisioneira.

sábado, junho 06, 2009

Quem sabe de ti, quem sabe?


"Meu amor, eu não me esqueço
Não se esqueça, por favor"
Paulinho da Viola


Não, eu não sabia que meu coração
ficaria tão vazio, tomado pela saudade,
nuvem indelével de dor
do que se quebrou,
pedaços cinzas do meu amor perdido.

Estava tão bonito,
manhãs acordando verdes
sob chuvas, sob céus e
a vida que prometia.

Algo se perdeu
o meu amor
que não mais é meu.

Quem sabe de ti, quem sabe?