terça-feira, abril 18, 2006

Teatro

Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.
C. D. de Andrade

Ando por aí, solitária na vida e me entrego.
Meu coração é como uma criança em busca de um brinquedo.
Julgo encontrá-lo em todos, acredito que é aquele o brinquedo
que me encantará e quero tomá-lo, guardá-lo em mim e para mim.
E sempre é névoa.
E sempre é espetáculo, de circo, no início. Depois drama, monólogo, nada.
Cega de sede, crio miragens, chego a tocá-las em sonhos e mais nada.
Às vezes, raios de luz me aquecem, inconstantes e belos.
E, se vão, como sempre vãos.

Imagem: Thiago Rodrigues

sábado, abril 15, 2006

Amar sozinho


O que eu sou pra você não é real.
O que eu sou pra você você não precisa
(Volcano, de Damien Rice).
Amar sozinho é andar sempre à margem das coisas, na sombra dos risos alheios, colhendo aqui e ali indiferenças, sem nunca enxergar os olhos de quem se ama porque estão sempre em outros olhos e os meus de águas tão acostumados, velam-se.
Amar sozinho é estar nu entre espinhos e se entregar a sonhos angustiantes pela ausência, antes pesadelos de que não se acorda nunca e que fazem das noites, vazios insones cheios de desejos inúteis.
Amar sozinho é deixar de ser.
Amar sozinho, um trapezista, a se lançar em abismos sem nenhuma esperança de qualquer braço a aparar meu destino e nele tecer redes de amor.
Imagem: Wolcott Henry

quarta-feira, abril 12, 2006

A páscoa que quero para meus amigos


E se a páscoa vier assim com um desejo pequenino de só olhar para aquela pessoa insuportável e dizer bom dia?
Se vier sem imensas pretensões de ressurgirmento, de renovar tudo?
Se vier só com um coração meio bobo e momentaneamente aberto para coisinhas carinhosas, como escrever um bilhete dizendo que está com saudades?
Uma páscoa com ovos de chocolate e sementes quase invisíveis de amor por essa humanidade inteira que só quer ser feliz?
Se for uma páscoa sem pé nem cabeça, sem ovos, sem coelhos, sem nada, sempre se pode dar uma olhada lá por dentro da gente e encontrar uns pedaços de infância, ou resquícios de amor adolescente ou vozes de amigos que continuam música em nossa cabeça.
Eu sou muito pequena para páscoas triunfais, mas renasço a cada dia, a mesma ou outra.
Por saber que isso é possível, desejo-lhe a sua páscoa, do seu jeito, imensa ou mínima, seja lá como for e com o meu bilhete dizendo que sempre sinto saudades de você.

segunda-feira, abril 10, 2006

Eu e você


São tantos os desencontros entre nós. É sempre assim, nunca estou ou você ainda não veio. O meu telefone está ocupado ou um andante ou um triunfo em alto volume o impede de ouvir meu chamado. É sempre assim, já me fui quando você chega ou nem vim e você me busca. Precisamos de uma esquina, um Almódovar em tarde quente ou daquele chá sem gosto e sem cor, mas tão chique com biscoitos que se esfacelarão em meu colo e você me pedirá para ali prová-los. Precisamos da praia e da areia nos seus cabelos e nos meus, de rolarmos como crianças sem sombras nos olhos. Preciso que me chame mais mil vezes e irei sempre encontrá-lo para me perder em lençóis obscuros e no seu peito e demorar anos-luz para encontrar o caminho de volta porque depois que suas mãos devassarem todos os meus vãos e planos e colinas não haverá mais estrelas que me guiem a não ser para você.

quarta-feira, abril 05, 2006

Arranhões



Não sei do amor porque é água tranquila ou inundação. Afogo-me nessas circuntâncias e me desmancho célere. Mas ondas recuam e fico, só arranhões da areia que nem sabe de nada porque não estava ali quando abracei as águas. E estas, quando voltam, são outras, o mesmo mar e outras águas. Salgam minhas feridas e mais uma vez me afogo, entreguo-me. O mesmo mar, o mesmo. E eu, cada vez mais ferida porque só fica em mim a rispidez da areia.

Imagem: Marco Paulo

domingo, abril 02, 2006

Atriz


Queria ser poeta e não apenas escrever essas incoerentes palavras e os versos mais desconjuntados. Pobre e previsível expressão do meu sangue, da minha vontade e desses carinhos guardados sob as sete chaves da sua distância e da minha saudade.
Queria saber escrever uns versos descrevendo como você abriu meu espetáculo e me fez estrela, bailarina de sonhos, dançando em seu peito.
Queria dizer do depois, quando as cortinas se fecharam e você, como as luzes de camarim, clareou meus seios e, astro, cantou as canções das carícias, allegro.
Mas, minhas palavras são um riachozinho modesto e quieto, indo, indo talvez no seu rumo, sem nunca saber se o alcançarão.

Imagem: Degas

sábado, abril 01, 2006

Chão

Aonde irá esse andarilho que mora em mim?
Tento me afastar da tristeza, ele insiste em voltar a esses desvãos.
A tristeza voltou e não sei quem é o culpado? Serei eu ou ele?
Eu que acreditei que a estrada em construção seria o chão dos meus pés hesitantes a caminho de Pasárgada? Mas é tão frio, está tão longe de mim. A estrada se interropeu bruscamente e perdi o chão. Nem sou anjo, não posso voar, não posso mais sonhar porque tenho que buscar um lugar onde repor meus pés feridos, assim como minha alma. Será ele construtor de ilusões? Ou serei eu, perene visionária?

Imagem: Sérgio Rodrigo