sábado, março 03, 2007

Tango

Cansei-me de filosofices, das fotos bonitas em revistas inúteis, de visões do paraíso, de mortes, fumaças e do universal bocejo dos políticos-cangurus.

Vou cuidar das minhas fomes com bombas de chocolates e beijos que ressoam no céu da boca.
(quero suculências).

Vou lamber minhas feridas com todas as portas abertas.
Vou cantar na noite e espantar os morcegos sonolentos do meu castelo de cartas.



Cansei-me do amor pela metade,
do amor diplomático,
do amor paz-e-amor.

Vou me perder de paixão, dentro de um tango
e me embebedar de absinto.
De amor, vou morrer todos os dias.
Quero a paixão,
a alma que se abre,
que toma, devora e recomeça.
Cansei-me de meios tons e penumbras.
Agora, tudo é vermelho e amarelo.
E preto e branco.
E vice-versa.


Imagem: Klimt

sexta-feira, março 02, 2007

VERSOS

Mulher de solidões, aprendi a esquecer o ruído das vozes, acostumei-me com o virar das folhas dos livros, ora fiéis, ora esquivos, como amantes.
Já sei como abandonar os sonhos que nunca serão melodia, feitiço ou pecado.
A única voz que me acompanha é a desses poetas que comigo passam as horas, não sei se vivos, não importa se mortos. Sei que choram quando choro e trazem outras solidões para acompanhar a minha.


Não há mais pássaros para ouvir cantar.
Não há mais palavras de amor ou cólera ou cantarolar entre minhas paredes.
Até o sol se esqueceu de aquecer minhas cortinas.
Nada me inferniza, nada me cega,
como o poeta cantou em sina de bem querer.
O querer é uma suavidade que passou pela rua em que vivo
sem parar à minha porta.

Já amei tanto. Já ganhei tantos presentes, mas nenhum futuro.
Vivi de impermanências até me cansar.
Hoje vivo dos versos alheios
que nada querem saber,
além de sua própria melodia
que canto bem alto para mim mesma.
Com eles faço festas.
Eu e eles.

Imagem: Magentas

Hoje tem um poema pequenino lá no blog do Léo. Vem ver.

quinta-feira, março 01, 2007

Fiquei só


Então, fiquei só.
Surda,
finalmente entendi as palavras de ir que andavam pela casa, mudando as cores, cerrando janelas
e se acumulando em mim.
Agora vejo os vazios que, de todos os cantos me acenavam com sua anunciada ausência.
Só. E só agora sei que a claridade nos cômodos era névoa, era gelo, era a neve do engano enterrando nosso antigo amor.
Foi tão leve sua partida!
Só vi que iria quando suspendeu o beijo
e meus olhos enxergaram, por fim,
o cansaço nos seus.
Quase falei, mas a inutilidade das palavras invadiu o momento e apagou todos os sons.
Escolhi ficar com as lembranças e você se foi,
como um segredo meu que se abriu e saiu pelo mundo.


Imagem: Luisa Bardi

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Cuidados

Se deixei o amor sozinho
na banalidade dos dias, perdão.
Aviso os pássaros, solto os cães, acendo os faróis,
até trazê-lo de volta,
protagonista de todas as horas.

Se calei a música e guardei os carinhos
em versos sem ritmo, perdão.
Reabro o cantar, o calor na voz
e espalho papéis pelas ruas.

Se me revelei apenas promessa
e minha alma se tornou inalcançável, perdão.
Reaprendo a soletrar meus desejos
e refaço o futuro para andar ao seu lado.

Mas, não sou um ser de amarras.

Amo com a veste dos pagãos
e dos impuros anjos sem esperança.

Amo como a boca ama o ardor e a doçura,
como o livro ama as mãos que abrem seus segredos.

Não acalente meus sonhos, eu os quero vivos.
Não adormeça em meus olhos, a sede de me soltar
nem engane meus sentidos com o medo de amar.

Não sou um ser de amarras.

Imagem: Bouquereau

domingo, fevereiro 25, 2007

Sonho

Não, o amor não devia doer assim.

Nem demorar tanto e chegar tão impossível.

Não, não devia ser apenas nuvem, choro na madrugada e saudade.

O amor não deveria invadir as horas dessa forma e perturbar os olhos, sempre voltados para tão longe.

Não, a distância não precisava ser tamanha nem confundir o onde e inventar esse desejo de asas nascendo, súbitas e fortes.

Quem dera o amor agora,
a traquila certeza, o colo.
Quem dera o amor em paz,
cobrindo a tarde de carícias distraídas!
Quem dera o riso, o gozo, o sono
e o amanhã escrito,
perfeita previsão!
Quem dera você aqui.

Imagem: Daoni Pina

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Frio

Sobram em mim ternuras e já não as sei usar.

Esqueci os beijos e (não sei porquê)
só me lembro do antes,
do segundo em que o calor dos lábios
faz tremer o ar e arrepia a pele,
do silêncio que se faz no mundo todo,
como se depois dele, nada mais fosse existir.

Esqueci as carícias.
Delas, uma fraca luz, como um abajur antigo
acinzentando a sala e seu fogo que ainda queima, brevíssimo.

Esqueci as palavras de amor.
São ecos, gritos de pássaros em longínquas praias.
Ou serão as flores que nunca chegaram,
esta porta sempre fechada
ou as cartas, tantas cartas sem vir
e o perene inverno em meu corpo?

Tudo frio, escuridão e minha ternura dorme.


Imagem: Clemente Micarelli

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Descobrindo o amor

Descobrir o amor foi mergulhar em destemor, aventuras e riscos, o mel e as formigas.
Foi sentir o peito aberto como flor para o sol e a mente perdida entre claridades grandes demais.


Descobrir o amor foi enxergar nova estrada e ir por ela, indiferente às intempéries porque, sobre o chão, sou leveza,
só vejo flores no chão.
Foi desfazer muros e me fazer de rio para ir ao encontro do mar e seus ritmos e correntes.



Descobrir o amor foi embebedar-me de vinho amargo e inevitável e confundir meus passos com os seus, ouvir sua voz em minha boca e arder com seus medos e seus beijos.
Foi ver, nos seus olhos, o brilho dos meus.



(Em seus braços,
quero morrer de amor todo os dias)

Imagem: Shibata Zeschin


Hoje tem um pequeno poema lá no lindo mundo do Léo Scartezzini