sexta-feira, outubro 06, 2006

Faces

Não, amigo, não sou una. Há em mim, multidões, há pedaços de outras e seres inteiros e indefinidos que me completam. Há brincos de cigana e marcas de beijos. Minhas feras me habitam todas e algum anjo deixou fragmentos de asas por aqui. Manhãs me enchem de luz, para sempre tatuadas. Noites me habitam, em nudez e solidão. Vária, ando em fragmentos, desfruto deles e, com eles, choro. Algumas vezes, me aquieto; em outras, desato-me em rumos desconhecidos, pulando muros e tocando o sol. Há máscaras, de carnaval, umas; outras, negras, assemelham-se à morte. Sou muitas.

Lua, percorro meus mundos em busca de luz própria, perdida entre estrêlas desdenhosas a me cegar.

Bicho, carrego meus arquétipos da mata, da carne que se rasga e sangra em minha boca, na voracidade dos dias e noites e este medo que me tranca em cavernas.

Criança, acredito em promessas, em presentes, em futuros.

Mulher, desafio os deuses e os inconstantes amores e saio ilesa e forte, como do útero.

Beduína, rabisco outras trilhas de sol, fugindo da aridez dos antigos caminhos, das miragens, da sede, das dores.

Amante, devasso-me, desvasto meios-termos e hesitações, no transtorno lento ou célere da dança, tango? bolero?

Deusa, beijo as pedras terrenas por onde os pés do meu amor constroem seus caminhos, sem acreditar em minha existência.

Noite, calo-me na solidão das horas e espero o meu dia chegar.

Imagem: Bouquereau

quinta-feira, outubro 05, 2006

BORBOLETA


Venho dizer, amor, que dos dias, levo a cor dos seus olhos a me enfeitar.
A você, devo falar que, quando nada mais restar, ficará em mim a doçura de suas palavras de amor e as cores que acende em minha pele.
Para você, quero ser como a aurora dos dias, um sutil acordar que subitamente se revela em cores quentes.
Para nós, imagino caminho tranquilo, pés descalços e alma de borboleta para voejar tranquilamente sobre a vida, dela apenas admirando a cor e o perfume.

terça-feira, outubro 03, 2006

Insone


"Disfarçar minha dor, eu não consigo"
Chico Buarque

Se não sonho mais é por essa saudade que me impede o sono.
Se os meus sonhos se perderam é de ter amado tanto que não mais existem quimeras.
Acordada, sonho apenas com quem partiu, cigano, levando minhas pálpebras, deixando apenas retinas tomadas por uma única imagem de uma tristeza sem jeito, inútil, sem regresso. Só dor.
Acordada, dia após dia, sigo sua sombra que insiste na madrugada, fantasma do meu querer triste, anel de noivado que perdeu a pedra e a cor, falso.
Cansada de ilusões, tento me entorpecer e apagar sua mão da memória destes meus poros de infernais desejos.
Ai, eu tento, em vão. Rasgo suas fotografias, colo os pedaços, colo seus pedaços indefinidamente. Só os meus continuam dispersos por aí, à sua procura.

Imagem: Haley Brown

domingo, outubro 01, 2006

Amar


O que posso senão amar? Desfazer a febre dessa alma ansiosa e esquecer o segundo antes do milagre do beijo, como posso?
E o veludo que me toca, sendo, antes, chama?
Não quero a placidez das horas sozinhas ou a morte-vida dos insensíveis.
Preciso das flores crescendo em primaveras jovens.
Quero chuva, violência de raios arrancando minhas raízes e seivas de amor em meus caminhos.
O que posso senão amar?

Imagem: Faustino

sábado, setembro 30, 2006

Felicidade

Pode ser que a vida amanheça sombria, que o telefone fique mudo e as flores acordem murchas, tristes. Pode haver chuva e cinzas irrevogáveis.

Os cachorros podem decidir continuar dormindo enquanto procuro no espelho minha relutante beleza.

O café doce demais, o pão que não deu certo, o frio contrariando meu vestido. Pode acontecer.

A felicidade entretanto, sorri para si e me dá asas. Anjo? Não.
Saio de vermelho, desafiando a manhã.

Imagem: Dell'Orto

sexta-feira, setembro 29, 2006

Reflexos

Ando meio rio, meio riacho, em calmaria,
deslizando pelos dias e noites
em cuidadoso encanto.
Depois de algum tempo de tristezas comuns,
ouço minha voz em música suave.
Depois de lagoa de sal e, no entanto, negra,
ando por aí, riozinho despretensioso,
que passa admirando flores e reflexos em sua pele líquida.
Ando por aí, procurando o mar.

quinta-feira, setembro 28, 2006

Dedicatória

Encontrei esta maravilhosa canção neste blog e resolvi copiar aqui, só para você.
Clique no título e se entregue a essas ondas, aos sons doces da canção, sons do mar e do amor, que dizem o que nem sempre podemos dizer.
A música, esse presente dos deuses, serve também para revelar nossos desejos e levar, até bem longe, palavras prisioneiras, apesar das janelas abertas.



CANÇÃO DO MAR


Fui bailar no meu batel
Além do mar cruel
E o mar bramindo
Diz que eu fui roubar
A luz sem par
Do teu olhar tão lindo

Vem saber se o mar terá razão
Vem cá ver bailar meu coração

Se eu bailar no meu batel
Não vou ao mar cruel
E nem lhe digo aonde eu fui cantar
Sorrir, bailar, viver, sonhar contigo

Frederico de Brito / Ferrer Trindade.


Imagem: Frederick J. LeBlanc