sexta-feira, agosto 03, 2007

Desamparo


Para além das horas cinzentas, vejo a vida passando,
o rio que nunca volta,
levando seixos, deixando as mais pesadas pedras.
Ando cansada deste peso, do mudo passar dos dias
"sem paz, sem amor, sem teto..."
Nem um bolero ou flores me alcançam.
Neste rio que indiferente, passa,
forte, o vento, de dentro, cobre a tenra cor das flores
e leva a música para outro mundo mais feliz.
Já me fingi de atriz e encenei dentro de outra cena
as horas alegres, as dores suaves e algum amor.
Triste espetáculo, sem coro, sem platéia. Desisti.
Hoje, vivo meus próprios dias, as horas vazias, as noites sem fim.
E arranco pedaços. Arranco pedaços de mim.
Quem sabe assim, de naco em naco,
diminua a solidão, cortando-a, em sangue,
em dor, em transe, até o fim.

Imagem: Jonh Henri Fuseli

9 comentários:

Renata disse...

saramar, essa poesia merecia estar em um livro sobre depressão. Nunca vi ninguém retratar tão perfeitamente o sentimento de algúem deprimido...só espero que não seja vc o paciente!
bjos e bom fds!

Ricardo Rayol disse...

caramba, que densa uto-flagelação

Edna Federico disse...

É pesado mesmo, mas muitas pessoas se sentem exatamente assim em algum momento da vida.
Beijo

soslayo disse...

Saramar:

É, minha querida amiga: existem dias e dias assim mas, depois do desânimo por vezes, lembra-te que haverá outro dia e o Sol com ele virá. A Alma de Poeta por vezes tem dessas existências mal compreendidas mas a crise sempre acaba de passar! Melhores dias farão esquecer os demais. Um grande beijinho.

Estrela disse...

Oie
gostei do blog, das msgs
Se não se importar estou adicionando seu blog na minha pagina pessoal.
bjs

Jota Effe Esse disse...

Não fiquemos desamparados, o rio que nunca volta sinaliza o caminho a seguir, benditos sejam todos os rios! Meu beijo.

Rosangela disse...

Suspiros...Aplausos...
Amo te ler...

Lord Broken Pottery disse...

Saramar,
Muito bom: "...Quem sabe assim, de naco em naco, diminua a solidão, cortando-a, em sangue,em dor, em transe, até o fim.", gostei muito.
Grande beijo

A.S. disse...

Nada melhor que começar o domingo que ler este belissimo poema!

Um beijo matinal, com sabor a mar...